domingo, 13 de dezembro de 2009

Domingo de chuva: meditando na cozinha


“Um dia frio. Um bom lugar pra ler um livro” (Djavan)

Hoje amanheceu assim: um domingo cinza e chuvoso. Bom para ler, como sugere Djavan. Mas também para cozinhar. O quentinho do fogão e o cheirinho de comida boa são bálsamos para a alma e o estômago, mesmo que a gente tenha que malhar muuuito para queimar as calorias.
E já que é domingo, tradicionalmente dia de não fazer nada, que tal praticar meditação culinária? Quando você se concentra no preparo dos alimentos, pensando em dar o seu melhor para nutrir (e encantar) a quem ama, pratica uma forma de desaceleração. Esqueça a tradicional macarronada com molho pronto. Sugiro que você faça um prato saboroso, simples e demorado de fazer, como a feijoada tão brasileira. O preparo é fácil, mas são vários processos: deixar feijão e carnes de molho, cozinhar cada um no seu tempo certo (começando, claro, pelos ingredientes mais resistentes), temperar e esperar que a chama faça seu trabalho, como diz o Anonymus Gourmet. No fogão à lenha seria maravilhoso. Luxo para poucos.
Uma sopa também pode ajudá-lo a ficar em paz. Cortando miudinho cada tipo de legume, temperando e selando a carne no azeite quente, juntando caldo de galinha (feito em casa é bem mais nutritivo e light que o de cubinho, bastando tirar a pele do frango e cozinhar até amolecer, com temperos verdes) e esperar, esperar, esperar o ponto.
Também sugiro uma receita especialíssima, que aprendi com meu marido, e adoro fazer no inverno. É risoto de alcachofra. É pra comer rezando, mas precisa ter paciência de monge para fazer.
Vá à feira e encontre as melhores alcachofras (segundo minha sogra, elas têm de estar “sorrindo”). Em casa, lave umas quatro e cozinhe-as até começar a soltar as pétalas. Aí vem a meditação: você pega cada uma das pétalas e raspa a massinha verde num prato fundo. Cada uma. Guarde algumas para enfeitar. Quando chegar ao fundo, retire aqueles pelinhos dourados e jogue fora. O fundo propriamente dito deve ser picado miudinho e reservado. Pegue a massa e passe tudo pela peneira, com a colher e jogando um pouquinho de água no final (que servirá para o caldo). Esprema para só restar as fibras. Calma... essa é só a primeira parte!
Na sequencia, coloque manteiga para aquecer (cuidado para não queimar) e uma xícara de arroz próprio para risoto (italiano mesmo, tipo arbóreo, que dá cremosidade e se mantém tenro, sem empapar). Refogue em chama alta. Se quiser, antes de por o arroz adicione alho bem picado. Quando começar a dourar, jogue uma xícara de vinho branco. Abaixe o fogo e respire bem fundo. Toda vez que for secando, coloque uma xícara de caldo de galinha ou legumes (como disse, natural é melhor que o artificial – deixe a preguiça de lado e faça o seu, com cenoura, alho-poró e outros vegetais. Eu aproveito o caldo da própria alcachofra). Esse processo – seca, molha; seca, molha – vai se repetir até que o arroz esteja macio e o caldo levemente cremoso. Um pouco antes do ponto, entre com a alcachofra reservada à panela. Deixe cozinhar mais alguns minutos, mas o caldo ainda deve estar um pouco ralo. Corrija o sal (prove para saber). Desligue o fogo. Junte uma colher cheia de manteiga e muito queijo parmesão (de boa qualidade, nada daqueles de saquinho do mercado; na feira vendem em pedaço).
Por fim, deite este risoto delicioso num refratário e divirta-se decorando. Aqui em casa gostamos de colocar fatias de tomate com filezinhos de aliche, azeitonas pretas, alho tostado ou simplesmente mais parmesão. Leve ao forno para gratinar. Arrume a mesa bem bonita. Nunca guarde louças novas para uma ocasião especial. A ocasião especial é hoje. Minha avó guardava as porcelanas chinesas que ganhou no casamento, preferindo usar aquelas baratinhas nas refeições, e morreu sem desfrutar deste pequeno prazer. E nem eu consegui herdá-las, pois acabaram quebrando na caixa por algum desavisado.
Coma com satisfação, saboreando lentamente cada colherada (afinal, para que tanto trabalho?), de preferência junto às pessoas que te fazem bem e com um bom vinho branco. Os chilenos têm boas safras.
Depois disso, não ria agora, mas enfrente a louça com satisfação. Acredite, é relaxante lavar pratos. Depois vá para a cama, para uma merecida sesta ou, quem sabe, prolongar o romantismo da receita.

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