Nem sei desde quando sou assim, cheia de pressa. Talvez porque tenha sido uma criança dispersa e lenta ou por ter escolhido o jornalismo como profissão. Quem sabe por viver nessa era de coisas curtas, instantâneas. Não sei. O fato é que sou o que um grande amigo me apelidou: a Mulher-urgente. Urgente por botar pra fora toda essa inquietação imaginativa. Urgente por viver porque a escrita nada mais é que a vida, em suas múltiplas feições.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Água para sorte e saúde no Ano-novo
“Água que nasce na fonte,
Serena do mundo,
E que abre um profundo grotão.
Água que faz inocente
Riacho e deságua
Na corrente do ribeirão...
Águas escuras dos rios,
Que levam a fertilidade ao sertão.
Águas que banham aldeias
E matam a sede da população...”
(Guilherme Arantes)
Comer romã e lentilhas, usar roupas brancas e novas, guardar sementes de uvas... Sugestões para atrair sorte não faltam em qualquer Réveillon. Eu sugiro algo que nada tem de supersticioso, mas possui o claro significado de vida, saúde e bem-estar: a água. Por dentro ou por fora, ela faz a faxina que a gente precisa para mudar o ciclo e entrar, com o pé direito, no novo ano.
Como é verão, fica fácil. Água vai bem com tudo: pura, em sucos de frutas e outros mais, como o de clorofila, em chás gelados... E o que não dizer da deliciosa água de coco? Já que somos constituídos de muita água, consumi-la é essencial. Nesta estação quente, melhor beber que comer. E se considerarmos que os festejos envolvem bebidas alcoólicas, hidratação faz um bem enorme ao corpo, ressentido da exposição solar. Mesmo ao comer, dê preferência a frutas como melão e melancia, a gelatinas (a aguar-aguar, feita de algas, é melhor ainda), sorvetes sem leite, saladas coloridas e legumes no vapor. Entre as carnes, como não poderia deixar de ser, a de peixe combina com verão, especialmente grelhada. Bom quem pode pescá-lo fresquinho e sem metais pesados.
Por fora, recomendo um banho. De mar, claro, tão disponível para nós, só que olho na bandeira da Sabesp. Em casa, um simples banho de chuveiro refresca, acalma a mente e aquieta o coração: se frio, é revigorante; morno, relaxante; e quente, no inverno, aconchegante. Para os místicos, na net há várias receitinhas de banhos com ervas, como o poderoso alecrim, para levar os maus fluídos ralo abaixo.
Banho de cachoeira é um luxo para poucos. Como canta a incrível Tetê Espíndola e sua voz de ave pantaneira: “Há um chuvisco na Chapada. Em toda mata um cochicho em cê-agá. Chuá-chuá na queda d'água. Em me espicho e fico quieta, nada me falta”. Já me sinto lá...
Perfumes? Sim, as águas de colônia são muito suaves, que prolongam a sensação de banho e produzem uma aura gostosa. São completamente "out" os perfumes pesados, típicos do inverno, que agridem o olfato. Ao invés de atrair, espanta. Mandarina, lavanda, frutas cítricas, são muitas as águas perfumadas, basta escolher uma que combine com você.
Para desacelerar, nada como uma piscina. Os movimentos são lentos, exigem mais e nos recordam o útero materno. Aliás, parênteses para mamães e papais: para acalmar os bebês, a nova moda é o banho de balde, acredite se quiser. Voltando ao banho, quem pode usufruir dos benefícios das saunas ou das termas, maravilha também.
Só não vale uma coisa: desperdício. Não gaste água lavando carros, calçadas e de outras formas desnecessárias. Hoje a temos e um brinde a isto. No futuro, para as próximas gerações, o que equivale dizer aos nossos descendentes, a água potável talvez seja ainda mais preciosa. Quem sabe, rara. Portanto, preserve.
Ah, também não vale contaminá-la, mesmo em atitudes banais como derramar óleo de cozinha na torneira da pia – experimente fazer sabão. Ensine isso às crianças e ajude a criar cidadãos mais conscientes. Para que nos próximos anos possamos continuar brindando o Réveillon com muita água.
É isso: em 2010, te desejo paz, tranquilidade, amor e muita sombra e água fresca. Agora pode pular as sete ondas do mar e beber champagne (sem dirigir depois, lógico), que ninguém é de ferro. Pelo contrário, somos 70% água. Boa sorte!
Socorro! O computador me engoliu!
“O cérebro eletrônico comanda, manda e desmanda.
Ele é quem manda, mas ele não anda.
Só eu posso pensar se Deus existe, só eu.
Só eu posso chorar quando estou triste, só eu.
Eu cá com meus botões de carne e osso, eu falo e ouço.
Eu penso e posso”
(Gilberto Gil)
Internet é algo que absorve. Estou em licença-maternidade e, nas horas vagas, acesso e-mail, entro no Orkut e dali para uma pesquisa é um salto. Volto para outro e-mail (tenho quatro), navego outro site interessante, depois outro, uma conversinha no MSN, a leitura do jornal e das revistas... E quando vejo estou horas ali em frente ao computador, cega para o que tem ao redor, completamente envolvida com esse brinquedo de gente grande (e pequena também). Com o aumento da frequência, vicia e passa a ser rotina viver neste mundo virtual.
O problema está quando não nos colocamos limites. É tão prazeroso conversar com amigos, antigos e novos, interagir com pessoas diferentes, buscar novos conhecimentos, matar nossa sede de informação! Mas é preciso manter os pés no chão e não esquecer do mundo real, de quem está ao nosso lado, de carne e osso. Quantos pais permanecem hipnotizados em frente a tela depois de chegar do trabalho, sem tempo para ir à cozinha preparar uma refeição nutritiva e dar atenção aos filhos. E o inverso também é verdadeiro: jovens que se recusam a sair do quarto sequer para jantar, que respondem com monossílabas tentativas de diálogo. No campo profissional, é preciso manter a disciplina para evitar dispersão, já que a sedução de deixar o dever de lado é grande.
A Internet tornou-se uma grande aliada, dinamizou as comunicações e revolucionou o mercado de informações. Porém, a velocidade do mundo virtual, tão disponível e ilimitado, pode, paradoxalmente, nos tirar do mundo real. De repente estamos com centenas de amigos que nem conhecemos no site de relacionamentos e ninguém ao nosso lado, comprando por sites e deixando de sair de casa, conversando com os dedos e não mais olhos no olhos, vendo filmes pelo note e não mais no cinema. É como Frejat diz na canção quanto ao dinheiro: "quem é mesmo o dono de quem?".
Moderação em tudo é boa. Comida em excesso faz mal. Exercícios físicos também. Tudo que vai além da conta traz algum tipo de prejuízo. Internet não é exceção. Nem informação. Eu, como qualquer jornalista, sou curiosa e não me canso de buscar dados, textos, imagens, fontes de saber, mas a velocidade e o volume às vezes cansam. O resultado é mais ansiedade, dor de cabeça, nervosismo, agitação.
Quando notei que estava me deixando engolir pelo computador, mergulhando, não navegando, em suas atrativas possibilidades, resolvi emergir. E respirei fundo, como faria depois de algum tempo submersa em águas agitadas. Nem todos os dias escreverei neste blog, como desejo. Ler os e-mails duas vezes por dia está ótimo. Divididas entre afazeres e prazeres, as horas de folga serão momentos para, por exemplo, andar na praia, visitar uma amiga ou apenas ficar em silêncio. Enfim, tento encontrar formas de tirar o máximo proveito do meu notebook sem, entretanto, me aprisionar dentro dele. Agora mesmo, chega por hoje. É hora de dormir.
sábado, 26 de dezembro de 2009
Meu sonho
"Faça o que é bom, sinta o que é bom, pense o que é bom. Bom pra você.
Guarda pro final aquele sabor genial, se é genial pra você" (Zélia Duncan)
Estou na cozinha da minha chácara preparando uma sopa de couve-flor, curry, maçã e açafrão para o jantar. Com um fogão rústico e lenha por perto, a cozinha expõe panelas dependuradas e num paneleiro antigo de metal, maços de temperos frescos na pia, colhidos da horta que fica em frente. Numa cristaleira de madeira, pratos, tigelas e canecas coloridas, de cerâmica pintada à mão por mim mesma. E na mesa, um buquê de flores do campo azuis e girassóis amarelos.
Estou com os cabelos longos e sem tintura, presos num coque displicente, vestida confortavelmente com uma calça do tipo bailarina e uma camiseta curta, de chinelos de palha comprados no centrinho da cidade mais próxima. Estou sorrindo, feliz da vida. Olhando pela janela, vejo um morro ao longe, um pequeno lago com marrecos barulhentos, árvores frutíferas, jardim com uma estufa para orquídeas e meus filhos correndo atrás de um cachorro grande cor de conhaque, por entre as árvores.
Enquanto a sopa cozinha lentamente na panela de pedra e meu marido segue para nossa oficina, onde produzimos arte, aproveito para descansar na sala, com sofás amplos e fofos, tijolos aparentes e muitos quadros.
O cheiro bom da sopa mistura-se ao de café fresco, de coador. O som de risadas infantis confunde-se com os de aves e da cigarra, avisando que o sol está a pino. Não deito no sofá. Prefiro ir até a varanda, sentar na rede artesanal e agradecer a Deus por tudo aquilo. Fico ali alguns minutos, desfrutando a plena paz, respirando o ar puro do verde ao redor e depois volto à cozinha. Desligo o fogo. Tomo uma xícara de café fumegante, levo outra para meu companheiro e providencio mais lenha seca para a noite, que vai esfriar.
Volto para a cozinha, na dúvida entre colher amoras silvestres para uma geléia, plantar flores ou pintar um novo quadro. Decido deixar tudo para depois e deito na rede da varanda contemplando o céu e saboreando o mais completo ócio.
Guarda pro final aquele sabor genial, se é genial pra você" (Zélia Duncan)
Estou na cozinha da minha chácara preparando uma sopa de couve-flor, curry, maçã e açafrão para o jantar. Com um fogão rústico e lenha por perto, a cozinha expõe panelas dependuradas e num paneleiro antigo de metal, maços de temperos frescos na pia, colhidos da horta que fica em frente. Numa cristaleira de madeira, pratos, tigelas e canecas coloridas, de cerâmica pintada à mão por mim mesma. E na mesa, um buquê de flores do campo azuis e girassóis amarelos.
Estou com os cabelos longos e sem tintura, presos num coque displicente, vestida confortavelmente com uma calça do tipo bailarina e uma camiseta curta, de chinelos de palha comprados no centrinho da cidade mais próxima. Estou sorrindo, feliz da vida. Olhando pela janela, vejo um morro ao longe, um pequeno lago com marrecos barulhentos, árvores frutíferas, jardim com uma estufa para orquídeas e meus filhos correndo atrás de um cachorro grande cor de conhaque, por entre as árvores.
Enquanto a sopa cozinha lentamente na panela de pedra e meu marido segue para nossa oficina, onde produzimos arte, aproveito para descansar na sala, com sofás amplos e fofos, tijolos aparentes e muitos quadros.
O cheiro bom da sopa mistura-se ao de café fresco, de coador. O som de risadas infantis confunde-se com os de aves e da cigarra, avisando que o sol está a pino. Não deito no sofá. Prefiro ir até a varanda, sentar na rede artesanal e agradecer a Deus por tudo aquilo. Fico ali alguns minutos, desfrutando a plena paz, respirando o ar puro do verde ao redor e depois volto à cozinha. Desligo o fogo. Tomo uma xícara de café fumegante, levo outra para meu companheiro e providencio mais lenha seca para a noite, que vai esfriar.
Volto para a cozinha, na dúvida entre colher amoras silvestres para uma geléia, plantar flores ou pintar um novo quadro. Decido deixar tudo para depois e deito na rede da varanda contemplando o céu e saboreando o mais completo ócio.
Viver no presente para evitar acidente
“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não pára...
Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa. A vida é tão rara...” (Lenine)
Certa vez, foi visitar um primo, que considero irmão. Ele não estava, mas passei um tempo com sua esposa e seu filho pequeno. Tinha levado meu bebê de meses e, no caminho, como sempre, dirigia enquanto planejava o que faria, por quanto tempo e o que diria para sair cedo. Cheguei. Abraços. Fomos à cozinha com os meninos, conversamos, tomamos café, eles dormiram e conversamos mais. Olhei no relógio e vi que estava no limite que eu estabelecera para voltar. Um minuto perdido faria ruir meu planejamento.
Minha prima queria que eu ficasse mais, mas disse que não podia. Mentalmente, calculei o tempo que levaria para pegar meu filho mais velho na casa do pai dele e cruzar toda a cidade até chegar em casa, fazer o jantar, etc. Nem bem meu bebê acordou, já saí correndo, coloquei tudo na sacola, nos despedimos e eu, sem prestar nenhuma atenção, cumpri o ato mecânico de colocar bolsa e sacola no banco da frente, abrir a porta de trás, ajeitá-lo na cadeirinha, prender o fecho e... bater a porta. Quando, ainda sorridente e acenando, me aproximei do banco do motorista constatei que a chave do carro ficou do lado de dentro, dentro da bolsa.
Foi como se o mundo ruísse aos meus pés, fiquei sem ar. Só consegui balbuciar o ocorrido à minha prima, sentindo o sangue gelar. Fiquei estática, incrédula e só saí do meu transe com a pequena multidão que se formava. Na semana anterior, um pai tinha esquecido seu filho pequeno dentro do carro por horas, num estacionamento, e a criança morrera. Eu via meu filho sorrindo, os olhinhos de sono, as gotas de suor caindo sobre seu rosto, um calor imenso do lado de fora e todos os vidros trancados por dentro. Uns diziam para chamar o chaveiro, outros tentavam buscar chaves de carros iguais, mas um desconhecido mandou buscar um martelo, o que eu concordei, e quebrou o vidro, abrindo a porta. Ainda saí logo, mesmo trêmula, porque tinha que pegar o mais velho na casa do pai e consertar o vidro antes de cruzar a cidade para chegar em casa e preparar o jantar na hora exata.
Que loucura! O que a pressa não faz com a gente?! Quantos equívocos! Quantas falhas pela falta de atenção. Deixamos de perceber as coisas mais importantes da vida, as pessoas que mais amamos, porque somos escravos do relógio e não dimensionamos a profundidade dos nossos erros. Como fui inconseqüente tentando ser tão controlada, planejada e inflexível!
O cotidiano nos aprisiona em condicionamentos. Todos os dias fazemos os mesmos trajetos, repetimos as mesmas ações, obedecemos aos mesmos horários e não nos damos conta que nada se repete, nenhum instante é igual ao outro, apesar da sensação de que nada muda.
Depois deste episódio, deixei de andar no piloto-automático e passei a concentrar atenção no momento presente. Paciente e consciente, afrouxei minhas próprias regras para me permitir viver melhor.
Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa. A vida é tão rara...” (Lenine)
Certa vez, foi visitar um primo, que considero irmão. Ele não estava, mas passei um tempo com sua esposa e seu filho pequeno. Tinha levado meu bebê de meses e, no caminho, como sempre, dirigia enquanto planejava o que faria, por quanto tempo e o que diria para sair cedo. Cheguei. Abraços. Fomos à cozinha com os meninos, conversamos, tomamos café, eles dormiram e conversamos mais. Olhei no relógio e vi que estava no limite que eu estabelecera para voltar. Um minuto perdido faria ruir meu planejamento.
Minha prima queria que eu ficasse mais, mas disse que não podia. Mentalmente, calculei o tempo que levaria para pegar meu filho mais velho na casa do pai dele e cruzar toda a cidade até chegar em casa, fazer o jantar, etc. Nem bem meu bebê acordou, já saí correndo, coloquei tudo na sacola, nos despedimos e eu, sem prestar nenhuma atenção, cumpri o ato mecânico de colocar bolsa e sacola no banco da frente, abrir a porta de trás, ajeitá-lo na cadeirinha, prender o fecho e... bater a porta. Quando, ainda sorridente e acenando, me aproximei do banco do motorista constatei que a chave do carro ficou do lado de dentro, dentro da bolsa.
Foi como se o mundo ruísse aos meus pés, fiquei sem ar. Só consegui balbuciar o ocorrido à minha prima, sentindo o sangue gelar. Fiquei estática, incrédula e só saí do meu transe com a pequena multidão que se formava. Na semana anterior, um pai tinha esquecido seu filho pequeno dentro do carro por horas, num estacionamento, e a criança morrera. Eu via meu filho sorrindo, os olhinhos de sono, as gotas de suor caindo sobre seu rosto, um calor imenso do lado de fora e todos os vidros trancados por dentro. Uns diziam para chamar o chaveiro, outros tentavam buscar chaves de carros iguais, mas um desconhecido mandou buscar um martelo, o que eu concordei, e quebrou o vidro, abrindo a porta. Ainda saí logo, mesmo trêmula, porque tinha que pegar o mais velho na casa do pai e consertar o vidro antes de cruzar a cidade para chegar em casa e preparar o jantar na hora exata.
Que loucura! O que a pressa não faz com a gente?! Quantos equívocos! Quantas falhas pela falta de atenção. Deixamos de perceber as coisas mais importantes da vida, as pessoas que mais amamos, porque somos escravos do relógio e não dimensionamos a profundidade dos nossos erros. Como fui inconseqüente tentando ser tão controlada, planejada e inflexível!
O cotidiano nos aprisiona em condicionamentos. Todos os dias fazemos os mesmos trajetos, repetimos as mesmas ações, obedecemos aos mesmos horários e não nos damos conta que nada se repete, nenhum instante é igual ao outro, apesar da sensação de que nada muda.
Depois deste episódio, deixei de andar no piloto-automático e passei a concentrar atenção no momento presente. Paciente e consciente, afrouxei minhas próprias regras para me permitir viver melhor.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Um sonho de meio século
“Tempo Rei! Oh, Tempo Rei! Oh, Tempo Rei!
Transformai as velhas formas do viver.
Ensinai-me, oh Pai, o que eu, ainda não sei” (Gilberto Gil)
Quando numa conversa trivial, minha mãe disse que voltaria a estudar, fiquei tão emocionada e atônita que não pude conter as lágrimas. É que eu já tinha desistido de incentivá-la a voltar para a escola. Depois de tantos anos, nem cogitei que, no auge dos seus 62 anos, avó dos meus três filhos, aquela senhora de aparência frágil me surpreenderia desse jeito. Abracei-a com força e quando perguntei “Por que mãe, só agora?”, ela respondeu com aquele jeito sereno e certo: “Há tempo pra tudo, filha”.
Minha avó, filha de um imigrante português muito correto e rústico, não teve chance de estudar. Nem a mãe dela. Eram mulheres que passavam o dia cuidando dos pais e irmãos menores, depois dos maridos e filhos, depois dos netos, e nunca tinham tempo para si. Num tempo em que não havia ferro elétrico (eram de ferro, aquecidos por brasa), nem tevê, nem microondas. Que as roupas eram lavadas com cinza e ervas, quaradas ao sol. Não havia vacinas disponíveis para combater doenças infantis, nem pílulas anticoncepcionais em unidades de saúde, nem soutiens queimados em praça pública. Mulheres que respondiam, nos cadastros, que sua profissão era “do lar”. Donas-de-casa cujo árduo trabalho nunca foi reconhecido à altura.
Na inexorável tradição familiar, era esse o papel feminino no lar. E minha mãe, a mais velha de quatro filhos, não pode prosseguir os estudos porque sua mãe temia que ela “se perdesse na vida”, que se desviasse do caminho de mulher de família. Seu sonho era ser professora. Cursou até a quarta série do primeiro grau, hoje quinto ano do ensino fundamental. Guardou na gaveta a medalha de honra ao mérito que recebeu por ser uma das alunas mais aplicadas da sala e esperou meio século para prosseguir seus estudos.
Mas não esperou de braços cruzados, nem posando de vítima. Cuidou dos irmãos menores, casou e se dedicou ao lar, foi uma das mães mais presentes e participativas que eu conheço na minha vida escolar, checando cadernos, indo a todas as reuniões, tomando as matérias das provas, participando da Associação de Pais e Mestres... Pegando a mão de uma menina para ensiná-la a escrever seu nome, sem saber que no futuro ela faria das mãos sua bandeira e missão. Hoje eu sou jornalista graças ao seu incentivo. Depois de 19 anos, nasceu minha irmã e mamãe continuou sendo a mesma companheira e incentivadora. E posso dizer que minha irmã cursa faculdade de Nutrição também por isso. Ainda a outros ela ajudou, como voluntária e, ouso afirmar, missionária. Porque a África é aqui: você não precisa sair do País para encontrar vítimas da fome, da miséria e das mazelas sociais. Basta dar uma volta por aí.
Quando minha mãe citou Eclesiastes para responder minha pergunta, acho que ela quis me lembrar que o senhor do Tempo é Deus e que nossa vontade nem sempre predomina. Por amor, devemos abrir mão de muitos desejos e dar nosso tempo a quem precisa. É um presente valioso. Me faz lembrar do garotinho que queria comprar, com as moedas de seu cofrinho, um pouco do tempo do pai executivo que nunca parava para estar com ele. E pela fé, devemos acreditar que, cedo ou tarde, chegará o dia em que nossos sonhos serão realizados.
A atitude da minha mãe em se matricular no EJA (Educação para Jovens e Adultos, antigo supletivo) foi, mais uma vez, uma lição de vida. Que eu preciso priorizar o mais importante, nem que eu tenha que ir para o fim da fila. Que eu preciso ter calma e saber esperar, sem culpar ninguém. E que é preciso coragem para entrar em ação quando chegar a hora certa.
Perto de completar 40 anos de casamento, já a vejo saindo alegre da escola e encontrando meu pai, que carregará seus livros e, depois de um beijo carinhoso, lhe pagará um sorvete na pracinha ou, quem sabe, um cinema. E, apressada como sou, conto os dias para vê-la à frente de uma classe, lecionando para crianças barulhentas, com seus cabelos grisalhos, voz suave e a sabedoria que só o tempo nos concede.
Ser livre para ser feliz
"O medo de amar é o medo de ser livre para o que der e vier, livre para sempre, estar onde o justo estiver. O medo de amar é o medo de ser, de a todo o momento escolher, com acerto e precisão, a melhor direção. O Sol levantou mais cedo e quis em nossa casa fechada entrar. Pra ficar..." (Beto Guedes e Fernando Brant)
Ainda posso sentir o ar quente da balsa que atravessava o rio Tocantins numa “voadeira” de Miracema a Tocantínia. Respirava aventura com o vento batendo direto no meu rosto, o cheiro acre de comida indígena misturado ao frescor da palha que as mulheres teciam cestos. E eram tantas cores, texturas, sabores... O sorvete branco de cupuaçu, com seu gosto levemente azedo. O doce excessivo e até enjoativo do jenipapo que caía num imenso “ploc”, explodindo no chão e impregnando tudo ao redor com seu cheiro forte. O sabor do refresco de tamarindo, que puxa na garganta. E tantos outros sabores... de manga madura no pé, de banana assada à lenha, de tatu desfiado, de doce encaixotado e oleoso de buriti, um coquinho que tinge tudo de cor de abóbora.
Não lembro nomes e detalhes, mas não esqueço das sensações, como a de levar para lá e para cá uma tela em branco e um monte de tinta a óleo, degustando cada segundo de espera para o que viria a ser meu grande quadro, a obra-prima. O mesmo prazer que eu sentia ao olhar para uma folha em branco de papel sulfite, na pré-escola, ou escolher a cor que preencheria a maçã. O prazer das mil possibilidades. O prazer de ser livre.
Andando de bicicleta até o rio, em estradinhas empoeiradas e vermelhas de barro e sol de Tocantins, cercada pelo verde que exalava um perfume de mato virgem, eu me sentia livre. Livre e feliz. Poucas vezes me senti assim, tão genuína. Quando era criança e saía da casa da minha avó para a minha casa, quase ao lado, tarde da noite, podia correr e adorava correr pela rua deserta até a esquina, correr no lugar que de dia pertencia aos carros. Era como se a rua fosse só minha, eu fosse maior que os carros. Um tipo de poder.
As coisas simples são mais gostosas. Um rio para banhar, um sol para esquentar e um céu para contemplar, eis a vida! O som de pássaros e de cigarras, o horizonte sem fim e a lua sobre o mar são maravilhas. Na cidade não vemos isso e nos esquecemos da simplicidade. A gente trabalha muito, vive para trabalhar e não o contrário. Perseguimos o dinheiro e esquecemos que ele é apenas papel, quase sempre velho, fedido e sujo. Trocamos liberdade, amor, fé, saúde, tudo por dinheiro, iludidos com a propaganda do cartão de crédito.
Queria escrever um livro para uma criança ou adolescente sobre o meu sentido de vida. Mas no fundo mesmo eu queria era me convencer a mudar radicalmente a minha. Falar das coisas boas como comer bolo de mãe com café e leite, deitar no colo dela e se permitir ser criança de novo. Quando a gente é criança tudo é fácil, espontâneo. Choramos sem pudor, reivindicamos atenção e rimos até ficar com dor de barriga. Um copo de água com açúcar vira refresco, um papel e lápis coloridos uma ampla possibilidade, qualquer história nos faz protagonistas do faz-de-conta que sai das páginas de um livro para a vida real, que só existe na nossa cabeça. Mas crescemos e aprendemos a reprimir. Lá um dia tentamos lembrar, recompor, quem éramos de verdade e... Tarde demais! Não lembramos de mais nada. O tempo, as responsabilidades, as pressões nos imprimem máscaras, nos fazem mentir sobre nós mesmos, nos conduzem a outros caminhos.
E hoje nesta tarde ensolarada, enquanto meus filhos dormem, penso no que fui e no que quero ser. O que você quer ser quando crescer? É a pergunta que mais ouvimos na infância. Tem uma hora na vida que alguém lá do coração pergunta baixinho: O que você quer ser quando encolher? Essa pergunta tem duas implicações: encolher no sentido de envelhecer e encolher no sentido de voltar a ser criança. Quando Jesus falou que ninguém entraria no céu se não fosse como uma criança, acho que ele queria dizer isso. Resgatar sonhos, desejos, alegrias. Purificar a alma.
Sou jornalista e dediquei muito do meu tempo à função de divulgar notícias, nem sempre boas. Parece simples, mas não é. Eu sonhava em ir para algum lugar insólito, viajar muito pelo mundo e escrever notícias de lá, além de fotos, muitas e belas fotos. Nunca saí do Brasil e passei horas em jornais pequenos, insalubres, sob o comando de pessoas sem paixão, que só pensam em lucro. Em meio a tantas responsabilidades e sob o peso delas, que dói costas e cabeça, não vi meu filho mais velho crescer. Ele nasceu e, de repente, estava maior que eu, um jovem alto, magro e crítico demais. Aprendeu comigo. Que legado... Agora tenho outros dois filhos, um pequeno e outro recém-nascido. Não quero que aconteça a mesma coisa. Peço perdão ao meu belo rapaz, mas não conseguirei voltar no tempo. O que eu fiz e o que eu não fiz são irreversíveis porque passou. O bom é que podemos, juntos, curtir a infância dos outros dois, mergulhar com eles no mundo mágico das cores, sonhos e sabores. E assim voltar à nossa real essência. E quem sabe, um dia, fazer uma linda matéria em Tocantins.
Ainda posso sentir o ar quente da balsa que atravessava o rio Tocantins numa “voadeira” de Miracema a Tocantínia. Respirava aventura com o vento batendo direto no meu rosto, o cheiro acre de comida indígena misturado ao frescor da palha que as mulheres teciam cestos. E eram tantas cores, texturas, sabores... O sorvete branco de cupuaçu, com seu gosto levemente azedo. O doce excessivo e até enjoativo do jenipapo que caía num imenso “ploc”, explodindo no chão e impregnando tudo ao redor com seu cheiro forte. O sabor do refresco de tamarindo, que puxa na garganta. E tantos outros sabores... de manga madura no pé, de banana assada à lenha, de tatu desfiado, de doce encaixotado e oleoso de buriti, um coquinho que tinge tudo de cor de abóbora.
Não lembro nomes e detalhes, mas não esqueço das sensações, como a de levar para lá e para cá uma tela em branco e um monte de tinta a óleo, degustando cada segundo de espera para o que viria a ser meu grande quadro, a obra-prima. O mesmo prazer que eu sentia ao olhar para uma folha em branco de papel sulfite, na pré-escola, ou escolher a cor que preencheria a maçã. O prazer das mil possibilidades. O prazer de ser livre.
Andando de bicicleta até o rio, em estradinhas empoeiradas e vermelhas de barro e sol de Tocantins, cercada pelo verde que exalava um perfume de mato virgem, eu me sentia livre. Livre e feliz. Poucas vezes me senti assim, tão genuína. Quando era criança e saía da casa da minha avó para a minha casa, quase ao lado, tarde da noite, podia correr e adorava correr pela rua deserta até a esquina, correr no lugar que de dia pertencia aos carros. Era como se a rua fosse só minha, eu fosse maior que os carros. Um tipo de poder.
As coisas simples são mais gostosas. Um rio para banhar, um sol para esquentar e um céu para contemplar, eis a vida! O som de pássaros e de cigarras, o horizonte sem fim e a lua sobre o mar são maravilhas. Na cidade não vemos isso e nos esquecemos da simplicidade. A gente trabalha muito, vive para trabalhar e não o contrário. Perseguimos o dinheiro e esquecemos que ele é apenas papel, quase sempre velho, fedido e sujo. Trocamos liberdade, amor, fé, saúde, tudo por dinheiro, iludidos com a propaganda do cartão de crédito.
Queria escrever um livro para uma criança ou adolescente sobre o meu sentido de vida. Mas no fundo mesmo eu queria era me convencer a mudar radicalmente a minha. Falar das coisas boas como comer bolo de mãe com café e leite, deitar no colo dela e se permitir ser criança de novo. Quando a gente é criança tudo é fácil, espontâneo. Choramos sem pudor, reivindicamos atenção e rimos até ficar com dor de barriga. Um copo de água com açúcar vira refresco, um papel e lápis coloridos uma ampla possibilidade, qualquer história nos faz protagonistas do faz-de-conta que sai das páginas de um livro para a vida real, que só existe na nossa cabeça. Mas crescemos e aprendemos a reprimir. Lá um dia tentamos lembrar, recompor, quem éramos de verdade e... Tarde demais! Não lembramos de mais nada. O tempo, as responsabilidades, as pressões nos imprimem máscaras, nos fazem mentir sobre nós mesmos, nos conduzem a outros caminhos.
E hoje nesta tarde ensolarada, enquanto meus filhos dormem, penso no que fui e no que quero ser. O que você quer ser quando crescer? É a pergunta que mais ouvimos na infância. Tem uma hora na vida que alguém lá do coração pergunta baixinho: O que você quer ser quando encolher? Essa pergunta tem duas implicações: encolher no sentido de envelhecer e encolher no sentido de voltar a ser criança. Quando Jesus falou que ninguém entraria no céu se não fosse como uma criança, acho que ele queria dizer isso. Resgatar sonhos, desejos, alegrias. Purificar a alma.
Sou jornalista e dediquei muito do meu tempo à função de divulgar notícias, nem sempre boas. Parece simples, mas não é. Eu sonhava em ir para algum lugar insólito, viajar muito pelo mundo e escrever notícias de lá, além de fotos, muitas e belas fotos. Nunca saí do Brasil e passei horas em jornais pequenos, insalubres, sob o comando de pessoas sem paixão, que só pensam em lucro. Em meio a tantas responsabilidades e sob o peso delas, que dói costas e cabeça, não vi meu filho mais velho crescer. Ele nasceu e, de repente, estava maior que eu, um jovem alto, magro e crítico demais. Aprendeu comigo. Que legado... Agora tenho outros dois filhos, um pequeno e outro recém-nascido. Não quero que aconteça a mesma coisa. Peço perdão ao meu belo rapaz, mas não conseguirei voltar no tempo. O que eu fiz e o que eu não fiz são irreversíveis porque passou. O bom é que podemos, juntos, curtir a infância dos outros dois, mergulhar com eles no mundo mágico das cores, sonhos e sabores. E assim voltar à nossa real essência. E quem sabe, um dia, fazer uma linda matéria em Tocantins.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Imite os gatos
"Não faço nada, e ainda morro de preguiça. Tenho sono o dia inteiro. Madrugada é que me atiça" ("Gata", Marina Lima)
Observe os gatos. Como são lânguidos, elegantes e relaxados. Só ficam estressados na hora certa: quando miram um pobre passarinho ou algo que queiram pegar. E mesmo no momento da caça, primeiro ficam quietos, só em campana (como diria um policial), até dar o salto certeiro para o ataque.
Faça como os gatos, então. Aprenda a ficar tenso só quando necessário: para fugir ou enfrentar uma situação real. É para usar o hormônio do estresse só de vez em quando, numa situação de emergência. No cotidiano, de forma banal, ele começa a fazer mal e fica crônico. Deixa doente.
Para relaxar como os gatos, comece praticando alongamento da forma mais simples possível: espreguiçando-se! De manhã, quando acorda. De noite, quando vai dormir. E durante o dia, quando der.
Quem quiser acalmar a mente, além de esticar o corpo, faça assim: deite, feche os olhos e relaxe o corpo aos pouquinhos. Procure não pensar em nada e se concentre apenas no relaxamento. Largue-se. Comece pelos dedos dos pés, pelas pernas, pelo quadril e vá subindo até a cabeça. Sinta os músculos descontraírem devagar. Se quiser, ponha uma música suave, só instrumental, e um cheirinho bom de incenso (só com janela aberta) de lavanda ou sprays suaves e cítricos (A Blue Gardênia tem uns ótimos; pena que são caros). Quando estiver sem nenhum foco de tensão, levante devagar, respire fundo e sinta-se outro, muito mais renovado.
Observe os gatos. Como são lânguidos, elegantes e relaxados. Só ficam estressados na hora certa: quando miram um pobre passarinho ou algo que queiram pegar. E mesmo no momento da caça, primeiro ficam quietos, só em campana (como diria um policial), até dar o salto certeiro para o ataque.
Faça como os gatos, então. Aprenda a ficar tenso só quando necessário: para fugir ou enfrentar uma situação real. É para usar o hormônio do estresse só de vez em quando, numa situação de emergência. No cotidiano, de forma banal, ele começa a fazer mal e fica crônico. Deixa doente.
Para relaxar como os gatos, comece praticando alongamento da forma mais simples possível: espreguiçando-se! De manhã, quando acorda. De noite, quando vai dormir. E durante o dia, quando der.
Quem quiser acalmar a mente, além de esticar o corpo, faça assim: deite, feche os olhos e relaxe o corpo aos pouquinhos. Procure não pensar em nada e se concentre apenas no relaxamento. Largue-se. Comece pelos dedos dos pés, pelas pernas, pelo quadril e vá subindo até a cabeça. Sinta os músculos descontraírem devagar. Se quiser, ponha uma música suave, só instrumental, e um cheirinho bom de incenso (só com janela aberta) de lavanda ou sprays suaves e cítricos (A Blue Gardênia tem uns ótimos; pena que são caros). Quando estiver sem nenhum foco de tensão, levante devagar, respire fundo e sinta-se outro, muito mais renovado.
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