segunda-feira, 7 de março de 2011

Bendita la luz de tu mirada

"Faz um tempo eu quis, fazer uma canção
Pra você viver mais"
(Pato Fu)

Esta música, "Canção pra você viver mais", fala sobre o sentimento de uma filha sobre seu pai e me diz muito. Sempre choro, não tem jeito, é inevitável, no carro, numa sala de espera, aqui no micro. Ocorre que hoje quero escrever sobre o amor em família, mas não aquele amor do fruto do ventre, o amor a quem concebemos ou nos concebe. Quero falar do amor que chega e transforma tudo, que nos encanta e surge de onde menos esperamos.
Trabalho num hospital, mas na área de comunicação. E eis que no Natal do ano passado tive que acompanhar o Papai Noel até a UTI Neonatal, onde me deparei com uma garotinha de bracinhos abertos e o sorriso mais lindo que eu já vi em toda a minha vida. Essa pequena - da idade do meu filho mais novo, nasceu um mês depois dele, hoje estão com um ano e meio - mudou minha vida. Passei minhas férias indo três vezes por semana ao abrigo onde ela está, depois de visitá-la no hospital até sua alta, quase todos os dias, no horário de almoço.
Ela é uma luz, o verdadeiro Sol. Nasceu com um problema muito grave de saúde e está sob a tutela da Justiça, aguardando adoção. Não anda, não senta, não come pela boca, mas por uma gastrostomia. Seu corpinho frágil revela várias cirurgias, cicatrizes da sua sobrevivência. É uma fênix.
Em quatro meses de convivência, assumi o compromisso de ser voluntária, ajudando a dar apoio a crianças abandonadas; penso em criar uma atividade ligada ao jornalismo para os adolescentes na mesma situação; hoje lidero um grupo de humanização onde trabalho. Não importa se o dia está cheio, se estou cansada, se estou sem tempo: dou um jeito e sempre a vejo. Cada vez que olho para ela e ela sorri, meu coração transborda de paz. O tempo pára. Não há pressa; aliás, costumo dar meu relógio para ela brincar. Desde então, quando estou com meus filhos, me concentro neles, aproveitando cada momento, como agora, meu filho do meio, de 4 anos, cantando: "Bendita la luz, bendita la luz de tu mirada", do grupo Maná (a canção se chama "Bendita Tu Luz"). Agradeço a Deus a bendita luz do olhar da minha menina.
Não ando escrevendo aqui porque a Síndrome da Pressa me parece um grão de areia de tão insignificante. Quando olho meu anjinho, por quem estou completamente apaixonada, enfrentar tantos problemas graves de saúde sorrindo, o tempo congela e nada mais importa a não ser o momento que passamos juntas.
Este é o amor incondicional, que brota do vazio. Uma receita para ser feliz. Estamos juntas, mesmo que minha condição atual não permita que a pegue no colo e a leve para casa, como adoraria fazer. Estamos juntas, mesmo sabendo que Papai do Céu poderá, um dia, chamá-la para se tornar uma estrela. Estamos juntas, mesmo que subordinadas a um sistema, à burocracia, a avaliações de estranhos, a autorizações oficiais. Estamos juntas, mesmo em casas separadas. E isso nada e ninguém poderá mudar. Meu tempo é agora. Nosso tempo é o presente e este é o meu maior presente: ter a dádiva de tê-la em minha vida.
Sem saber, essa garotinha me fez voltar ao meu verdadeiro caminho, como um farol de milha. Literalmente mudou minha vida e hoje penso em lutar para que as pessoas se sensibilizem com crianças portadoras de necessidades especiais que estão para adoção nos abrigos, aguardando uma chance de brilhar para uma pessoa, para uma família, para o mundo. Tomando conhecimento deste universo, que envolve a adoção tardia e o amor verdadeiro, sinto vontade de gritar a plenos pulmões que o amor é tudo e não tem rosto, um perfil. A perfeição é imperfeita. Ser diferente é ser normal. Tantas lições aprendo com as histórias daquelas crianças tão pequenas e tão heróicas, que enfrentam a falta de amor, o abandono, doenças graves, o preconceito da sociedade e tantos outros problemas. Elas não exigem nada, apenas oferecem inocência, alegria, transformação.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Amigos

"- Olá! Como vai?

– Eu vou indo. E você, tudo bem?
– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro... E você?
– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranqüilo... Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é, quanto tempo!
– Me perdoe a pressa; é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
(...)
– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas...

– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança..."
(Sinal fechado, Paulinho da Viola)

A você, meu amigo, dedico este artigo. Talvez porque ontem morreu um amigo querido. Morreu simplesmente e eu nada pude fazer a não ser compor uma nota de pesar.
Escrevo este artigo para dizer o quanto te amo, mesmo que eu também só ande a cem. Sem tempo para um café, sem tempo para telefonemas. Vagando entre um compromisso e outro, em busca de um sono tranquilo, correndo para pegar meu lugar no futuro.
Meu amigo morreu antes que eu pudesse lhe perguntar se eu podia ajudar. Antes mesmo de eu lhe oferecer meus ouvidos, meu ombro, minhas mãos.
Penso em quantos amigos encontrei nos semáforos da vida. Aqueles segundos de sinal vermelho em que apenas dizemos que não, não esquecemos do outro, que vamos marcar de se ver. E a vida passa. E com ela a chance de sermos solidários de fato, a chance de proteger a amizade como a ave protege seu ninho. Mas o sinal abre, e o sonho se vai, as promessas se dissolvem, os dias passam, a vida corre.
Ali, no frio do asfalto, congelada naqueles instantes, fica a distância entre intenção e gesto. E a amargura de um imenso vazio.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Minuto

"Melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez" (Lobão)

Cena: cheia de urgência, chego à beira da calçada e vejo o semáforo vermelho, barrando uma fila de motoristas de automóveis loucos para acelerar. E naquele "olha-pensa-para ou corre", na dúvida se dará tempo para atravessar e vendo a ampulheta do semáforo se esgotar, na iminência do verde abrir passagem para aquela manada, ali naquela cena patética, olho para o lado e vejo uma mulher com um bebê no colo. Deixo de pensar no dilema de atravessar ou não a rua e penso que aquela mulher poderia ser eu, e seu bebê, meu filho mais novo, ainda de colo. Com um sorriso, ela diz: "Melhor esperar um minuto na vida que perder a vida em um minuto". Em cheio. Como uma torta na cara.
Naquele momento que me pareceu congelado, o sinal abriu para os carros e o que parecia eternidade se esgotou em alguns segundos ligeiros. Com segurança, atravessamos a rua movimentada, cada uma para o seu caminho. Meus passos e a minha consciência ficaram mais leves.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Último dia. Ou Tributo a Richard Carlson

"Meu amor

O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?
Iria manter sua agenda
de almoço, hora, apatia?
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia?"
(Paulinho Moska)

Acabei de ler um livro incrível. Peguei ao acaso, na biblioteca pública, na parte de autoajuda. Curto, simples e tão correto que fica difícil não tentar praticar seus ensinamentos. Acho que você deve ter ouvido falar, já esteve em listas dos mais lidos. Chama-se "Não Faça Tempestade em Copo D´água", da editora Rocco. Gostei tanto das 100 dicas que, ao chegar na centésima, "Viva este dia como se fosse seu último. Pode ser", busquei um contato com o autor do livro, Richard Carlson. Numa busca rápida, fiquei chocada e muito, muito triste, de ler Obituário em seu site em inglês. Reli o último capítulo e isso me fez parar.
Richard, que escreveu com aquela naturalidade que nos faz senti-lo como um grande amigo, morreu jovem, em 2006, de embolia pulmonar. Deixou filhas, esposa e o legado de seus livros como palestrante e consultor sobre estresse.
A vida e a morte nos surpreendem. Recentemente, já contei no blog, conheci um senhor de 100 anos incrivelmente bem. Pessoas jovens, como Richard, podem morrer sem aviso e a gente se sente naquele mar branco, cercado de névoa, o mistério da nossa frágil existência.
A única certeza que temos é a alegria do momento presente. Quando corremos e encaramos a vida como uma sucessão de eventos urgentes, ou quando valorizamos coisas e gente que não merecem atenção, não desfrutamos a experiência de viver. Quantos, ao morrer, além da caixa de entrada cheia de afazeres, deixam também o vazio existencial de quem nunca valorizou o que realmente era importante? Certamente Richard Carlson não foi um desses. Ele contribuiu, à sua maneira, para um mundo melhor, espalhando serenidade e amor por aí.
Sua morte prematura só reforça o último capítulo do livro que acabo de terminar de ler. Como diz Paulinho Moska na canção que cito na abertura, viva este dia como se fosse o último. E, como disse Carlson, ele pode ser.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Inteligência emocional

"De que vale teu cabelo liso
e as ideias enroladas dentro da tua cabeça?"
(Ana Carolina)

Não sei quantas vezes já saí do sério, o vulgo "piti", por não dimensionar bem uma situação e me sentir sobrecarregada. Nessas explosões de raiva e impotência, o raciocínio fica em algum lugar perdido dentro de um ser em ebulição. No meu caso, parece que entro em transe, minha capacidade lógica desaparece completamente e eu me desespero no mais profundo abismo da ignorância. Um surto. Buraco negro, em queda livre.
Tudo começa com uma carga que eu não consigo suportar, mas que vou carregando mesmo assim, dia após dia, hora após hora. Negligencio cuidados emocionais enquanto, paradoxalmente, acentuo os cuidados físicos com cremes, shampoos, perfumes, batons, como se isso fosse trazer algum alívio ou força. (Diga lá: não é nesta hora que consumimos mais? Nossos contracheques e extratos bancários com cifras vermelhas não são termômetros desta carência?) Sorriso no rosto, quantas vezes nossa vontade era berrar que detestamos uma situação ou pessoa, que está além da nossa capacidade de tolerância? E passamos batido...
Num momento banal - a chave perdida, o pneu furado, a pane no micro - tudo despenca e a fragilidade, até então oculta pela racionalidade, mostra quem somos de fato. E quem somos de fato? Humanos.
Nosso cérebro superior ao dos nossos irmãos mamíferos nos faz crer que somos algo entre o divino e o mágico. Criamos a fantasia de termos superpoderes. É a mãe que se acha a própria Mulher Elástico, com braços que esticam e alcançam filhos, tarefas do trabalho e afazeres de casa. É o homem que se vê como o Super Man, indestrutível. Mas, sinto dizer, somos de carne e osso exatamente como os nossos irmãos mamíferos. Temos necessidades comuns: de alimento, água, calor, sexo, afeto, sono, paz.
Quando a mente cria fantasias de poder extremo, o corpo não só padece com doenças (várias vezes me senti como à beira de um ataque cardíaco ou um AVC) como se rebela, fazendo outra coisa, pegando outro atalho por conta própria e gargalhando dos pobres neurônios.
Se compreendermos melhor esse complexo mecanismo que nos faz humanos, embora animais como os outros, podemos não apenas melhorar nossas relações interpessoais como ter mais qualidade de vida. Ando estudando esse tema, inteligência emocional, para saber dosar emoção e razão. Conseguir encontrar paz em meio ao caos, manter o pensamento calmo diante dos desafios, controlar emoções.
Hoje cedo tive um piti e acabo envolvendo muita gente ao redor. Na véspera, antes de dormir, li mais uma página do livro que elegi como guia para desbravar esse caminho. Mas, calma, só estou no primeiro capítulo. Das duas, uma: ou chego ao fim do livro transformada, ou ele vai para o armário de autoajuda onde adormecem livros sobre respiração, ioga, terapias alternativas... Ótimas leituras, mas algo me diz que só a prática diária de prestar mais atenção em nosso próprio ser vai surtir algum resultado. Por enquanto, essa é mais uma promessa de ano-novo e olha que já estamos no segundo semestre. O que posso fazer no momento é respirar fundo, distribuir desculpas e ir adiante. 

segunda-feira, 7 de junho de 2010

É junho

"Eu sei que é junho, esse relógio lento
Esse punhal de lesma, esse ponteiro,
Esse morcego em volta do candeeiro
E o chumbo de um velho pensamento..."
(Alceu Valença, Junho)



É junho e nem parece que chegamos ao meio de um ano que mal começou. Será que o tempo anda mesmo acelerado ou nós, acelerados que somos, mudamos nossa percepção de tempo?
O fato é que os dias se vão com uma rapidez impressionante e, paradoxalmente, o relógio se arrasta quando queremos que ele gire demais. Mesmo crendo que o dia devia ter mais de 24 horas, não temos poder para flexibilizar minutos ou segundos ao nosso bel prazer. Mas podemos desfrutar, com prazer, todo o tempo que temos.
Uma vida humana pode durar 80, 90 anos - se nada de errado antecipar a morte que chega naturalmente.
Um parênteses: semana passada encontrei um senhor de 100 que pediu para botar boné antes de ser fotografado, não sei se por vaidade ou respeito. Ao clicá-lo, senti a mesma emoção de contemplar um recém-nascido, no milagre da vida. Aqueles olhinhos cansados, a pele enrugada, o cabelo branquinho e a serenidade de quem já presenciou muitas coisas. E a pureza infantil que parece coroar pessoas muito idosas.
Se a existência é finita porque desperdiçar um tempo precioso com ansiedade, com o chumbo de um velho pensamento, como diz Alceu?
Neste mês de junho, ao invés de lamentar o ano que caminha para o fim, o convite é buscar alegria nas mínimas coisas do cotidiano. É tempo de frio, aconchego, bebida quente, a alegria das festas típicas, o entusiasmo do futebol. Entre amigos, queridos, família. Curta as crianças: elas crescem!
Aproveite. Saboreie cada segundo. Porque passa, e deve deixar saudade.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Diga sim, sem pressa e com amor

"Então case-se comigo numa noite de luar

Ou na manhã de um domingo à beira mar
Diga sim pra mim
Case-se comigo na igreja e no papel
Vestido branco com bouquet e lua de mel
Diga sim pra mim"
(Isabella Taviani)

No passado, valorizar cerimônias em momentos marcantes, como casamento e formatura, me parecia pura perda de tempo. Hoje penso diferente.
Uma colega casou no Sul e, ao entrar no site do fotógrafo, vi fotos lindas, despojadas, naturais. Nada posado, artificial, com maquiagens carregadas e vestidos empolados. Tudo muito simples, natural, tradicional, mas incrivelmente original. Adorei. Impossível não se encantar.
Aí pensei na quantidade de mulheres que neste mês, o das noivas, chegam ao altar depois de uma verdadeira maratona de compromissos exaustivos - que, aliás, virou até série de tevê, "Noivas neuróticas", nome que caiu como uma luva. São meses de antecedência para garantir o espetáculo e uma enorme canseira. Da escolha do modelo do vestido ao boneco do bolo, do convite ao lugar da lua de mel, o que deveria ser prazeroso acaba sendo alvo de muita irritação, principalmente se a noiva for daquelas que querem controlar cada detalhe. No final, além de uma baita dor de cabeça, o que sobra são imagens que retratam o artificialismo. Imagens sem vida, sem emoção, que se perdeu quem sabe na loja que vendeu as alianças de ouro ou na floricultura que decorou a igreja. Movimentos engessados, rostos suados e mantidos com muita base, sorrisos forçados, coroados por uma aura de preocupação.
É que as pessoas valorizam as coisas erradas. O álbum, a festa, o vestido, o glamour, nada disso é mais importante que a espotaneidade do amor. E o que é o casamento senão a celebração do amor? Da união de apaixonados?
As fotos do casamento que eu vi revelam um par afinado e íntimo como só conseguem formar as pessoas convictas da certeza do mais nobre sentimento humano. Fotos que flagram uma noiva bela e tranquila, serena em seu vestido branco e simples; um noivo brincalhão e feliz. No calor do aconchego das famílias e de amigos, uma vida em comum festejada com alegria. Sorrisos verdadeiros e risos dos momentos mais cômicos. Nenhuma ostentação, nenhum luxo, mas a elegância discreta de quem nunca pretendeu impressionar os outros. Imaginei aquele casal velhinho, lá na frente, revendo o álbum.
Voltei a navegar pelos sites de notícia e me deparei com mais uma celebridade que teve seu deslumbrante casamento desfeito sob acusações mútuas. O castelo de areia que desmoronou na primeira onda. Parei e pensei quanto tempo, dinheiro e energia gasto com o que não vale a pena. O que importa mesmo não exige neurose, estresse e pressa. Só basta amar.

PS.: Sim, eles curtiram cada minuto da festa, que durou três dias... E o fotógrafo é Filipe Francisco.